A nova Guerra Fria da tecnologia

O impacto da IA chinesa e a bolha do vale do silício

Os sinais de que a economia norte-americana pode estar em uma bolha se tornam cada vez mais evidentes. Dentro desse contexto, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China ganha um novo capítulo. Recentemente, um modelo de inteligência artificial chinês, chamado DeepSeek, demonstrou resultados equivalentes ou superiores ao ChatGPT, com um consumo de recursos aproximadamente 90% menor. Além disso, foi disponibilizado gratuitamente e com código aberto, permitindo que desenvolvedores criem suas próprias versões e integrem a tecnologia em diversos aplicativos.

O impacto dessa inovação para os Estados Unidos é profundo: a indústria de IA como serviço pode estar ameaçada. A situação lembra o lançamento do satélite Sputnik pela União Soviética em 1957, que revelou aos norte-americanos que estavam atrás na corrida espacial. As empresas de tecnologia dos EUA acreditam ter anos de vantagem sobre a China, mas agora percebem que já ficaram para trás.

O lançamento do Deep Seek coincidiu com o anúncio de um investimento de US$500 bilhões pelo governo norte-americano no projeto Stargate, destinado a fortalecer a infraestrutura para o treinamento de IA. No entanto, a China demonstrou que pode obter os mesmos resultados com muito menos recursos. Isso coloca em xeque a lógica de investimentos bilionários no setor, que sustentou o crescimento vertiginoso de empresas como a NVIDIA, cujos chips são essenciais para o desenvolvimento de inteligência artificial.

 

A bolha da tecnologia norte-americana

Hoje, oito das dez maiores empresas do mundo pertencem ao setor de tecnologia, mas seu valor de mercado nem sempre reflete sua capacidade real de lucro. A Tesla, por exemplo, é avaliada em mais de US$1 trilhão, apesar de ter registrado sua primeira queda de lucros em 2024 devido à concorrência com a chinesa BYD. Ainda assim, suas ações subiram, impulsionadas pelo entusiasmo dos investidores com as novas políticas econômicas do governo norte-americano.

A OpenAI, criadora do ChatGPT, é avaliada em US$150 bilhões, mas continua operando no vermelho, com perdas de US$5 bilhões em 2024. O índice preço/vendas, que avalia o valor de mercado das empresas em relação à sua receita, atingiu o maior nível da história do capitalismo este ano. A NVIDIA, por exemplo, tem um valor de mercado cem vezes superior ao seu lucro anual, um número justificável para uma startup, mas preocupante para uma gigante consolidada.

No livro Big Tech: A Ascensão dos Dados e a Morte da Política, Evgeny Morozov argumenta que essa bolha é sustentada por um modelo de acumulação de dados e algoritmos que permite a criação de monopólios sem precedentes. Ele e outros analistas, como Yanis Varoufakis, chamam esse fenômeno de “tecno-feudalismo”, onde o objetivo das empresas não é gerar lucro imediato, mas sim dominar o mercado, coletar dados e destruir a concorrência para, no futuro, extrair lucros exorbitantes.

 

A estratégia da china e a queda do Vale do Silício

A estratégia monopolista das gigantes da tecnologia norte-americana, que se baseia na aquisição e neutralização da concorrência, podem estar minando a própria capacidade de inovação do setor. Um exemplo são as políticas protecionistas dos EUA, como a restrição à exportação de chips avançados para a China. Apesar dessas barreiras, o avanço chinês na IA demonstra que existem fatores que o dinheiro não pode comprar.

A China recrutou talentos das principais universidades do país para o desenvolvimento do DeepSeek. Com uma população de mais de um bilhão de habitantes e altos níveis educacionais, o país possui a maior concentração de especialistas em ciência da computação do mundo. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o ensino superior é cada vez mais inacessível e dominado por elites econômicas, reduzindo a diversidade e a quantidade de talentos na área.

Durante décadas, os EUA se beneficiaram da fuga de cérebros, atraindo estudantes brilhantes da China, Índia e Brasil. Hoje, muitos desses profissionais estão retornando aos seus países de origem, aplicando seus conhecimentos no desenvolvimento de tecnologias locais. Isso reforça o potencial da China de desafiar o domínio norte-americano e, possivelmente, estourar a bolha do Vale do Silício.

O lançamento do DeepSeek não representa apenas uma vitória da China sobre a OpenAI na criação de chatbots. Ele sinaliza que os chineses não estão apenas tentando acompanhar os EUA na corrida da IA, mas sim liderá-la. Isso pode redesenhar o equilíbrio de poder tecnológico e geopolítico global.

No fim, a maior lição que a China deixa é que, quando seus adversários parecem gigantescos e poderosos, a melhor estratégia pode ser agir como a água: adaptável, fluida e implacável na busca pelo seu caminho.

 

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